Um olhar técnico para as mortes no trânsito até novembro de 2017

Praticamente todos os dias são veiculadas notícias de acidentes de trânsito que acabam resultando em vítimas fatais e/ou graves na região, mas isso não tem sido levado em consideração por quem resolve se ‘aventurar nas estradas’. A colunista Marcia Pontes, explana o assunto e traz em seu artigo o parecer de Simone Ciotta, psicóloga e especialista em comportamento humano no trânsito. Confira o artigo desta terça-feira (04) no Notícias Vale do Itajaí:

 

No artigo de hoje vamos lançar um olhar técnico para as mortes no trânsito de Blumenau até o dia 30 de novembro.  E eu não venho sozinha: conto nesta tarefa com a psicóloga perita examinadora do trânsito, Simone Ciotta, especialista em comportamento humano no trânsito para lançar o olhar técnico que anda bastante desvalorizado nos assuntos que se referem ao trânsito.

Desde o primeiro dia de 2017 até o dia 30 de novembro foram registradas 23 mortes no perímetro urbano de Blumenau, contando com o óbito da primeira vereadora de Blumenau, Maria do Carmo Carl, 91 anos, atropelada por um ônibus da Piracicabana enquanto atravessava na faixa de pedestres no terminal da Fonte. De cara, chama à atenção a quantidade de motociclistas envolvidos: 14 conduziam motocicletas, uma morte foi de carona na moto; outras duas foram de pedestres atropelados pelos motociclistas. Os tipos de acidentes foram o abalroamento, que pode ser a colisão lateral ou na saída de um cruzamento; e o choque contra objetos parados e carros estacionados.

A psicóloga especialista em comportamento humano no trânsito, Simone Ciotta, interpreta a utilidade das motos diferente da dos demais motorizados: além do uso para o trabalho, também é a principal opção também para a diversão. Muitos utilizam a moto para expressar algum tipo de comportamento de afronta à sociedade e o comportamento característico da juventude é de afrontar.  O sentimento de impunidade piora as coisas e serve como um potencializador da irresponsabilidade e reincidência.

Sobre o fato do mês de novembro de 2017 ter sido o que registrou mais mortes em comparação aos demais meses do ano: 4 mortes em 3 dias, chama à atenção para a psicóloga o fato de a mesma quantidade de  mortes ter ocorrido em mês de julho e apenas uma em outubro. Julho é o mês das férias escolares e outubro o mês das festas típicas, em que se consome mais bebida alcoólica e aumenta o risco de acidentes. Para Simone Ciotta, a presença mais forte da fiscalização de trânsito em outubro pode ser um fator para diminuir a crença na impunidade.

 

Rua Amazonas registrou 5 óbitos

Só na rua Amazonas foram registradas 5 mortes no trânsito até agora, 4 delas a poucos metros uma da outra em um trecho de retão precedido de curva e uma leve subida. A imprudência, velocidade, falta de atenção e comportamento inadequado na via estiveram relacionados de alguma maneira. As estatísticas demonstram que mais de 80% dos acidentes são durante o dia, nas retas, em vias com boa sinalização.

Reta, para muitos motoristas, é um convite à velocidade e velocidade tem para os jovens o significado de emoção, aventura, sensação de liberdade, mas também de autoafirmação e poder. “Acelerar, fazer malabarismos, testar limites com a certeza de que nada vai acontecer é bem característico da juventude. Muitos jovens não tem noção das consequências de seus atos no trânsito e de que nem sempre eles morrem, mas que também ficam em cadeira de rodas. Também não pensam na dor que fica para os pais.”, diz Simone Ciotta.

Dos 23 óbitos no trânsito até agora, 7 mortes foram durante a madrugada: entre 2h e 7h. Três mortos na faixa etária de 20 anos, um com 32 anos e 3 na faixa etária dos 40 anos. Algumas dessas mortes ocorreram no hospital e os testes de bafômetro comprovaram embriaguez por parte de quem provocou o acidente ou acidentou-se sozinho. As circunstâncias sinalizam para motoristas que voltavam da balada e dirigiram depois de beber, cientes de que não topariam com a fiscalização de trânsito pelo caminho. A explicação para a diferença de faixa etária também está no comportamento: os mais jovens, na faixa dos 20 anos, costumam não ter relacionamentos sérios, são solteiros. Entre os 30 e 40 anos, muitos estão saindo de relacionamentos e saem para se divertir.

 

Homens jovens lideram as estatísticas

A frota de veículos de quatro rodas é maior (mais de 252 mil) que a de motos (quase 46 mil). Dos 204.191 motoristas habilitados em todas as categorias, mais de 50% também está apto para dirigir veículos de duas rodas. Destes, mais de 82 mil são homens e um pouco mais de 30 mil são mulheres. Dos 23 mortos no trânsito de Blumenau, 21 eram homens. Uma mulher era motociclista e outra pedestre. Um condutor de motocicleta tinha 17 anos, outros 15 homens e uma mulher tinham entre 18 e 47 anos, confirmando as estatísticas nacionais. Para Simone Ciotta, a presença masculina maciça nas estatísticas pode estar associada ao fato de o poder aquisitivo ainda se concentrar nas mãos dos homens, já que nem toda mulher possui o seu próprio veículo. Muitas, ainda vão de carona com os homens.

 

Mais mortes no fim de semana e na segunda-feira

Sábado foi o dia da semana com mais registros de mortes, independente do horário: oito pessoas perderam a vida no trânsito neste dia; domingo vem em 2º lugar com outras 4 mortes. Uma delas foi de madrugada, às 2h, uma às 6h23, outra às 14h e outra às 15h10.  Curiosamente, na segunda-feira registrou-se também 4 mortes: uma delas às 5h (motorista), uma às 16h20 (ciclista), uma às 19h20 (motorista) e outra às 21h18.  Uma possibilidade a ser considerada é de que a morte no início da madrugada, se associada com álcool e imprudência, seja de motoristas indo ou vindo da balada. Os demais poderiam ter se envolvido em acidentes na saída do trabalho ou em realizações de tarefas cotidianas. Para muitas pessoas a segunda-feira é o dia de folga delas, pois trabalharam no final de semana. Uma dessas mortes já se sabe que esteve associada à alta velocidade, direção perigosa e perda do controle do veículo.

 

Mortes relacionadas a outras formas de violência

Algumas das mortes em acidentes de trânsito em Blumenau estavam relacionadas a outras formas de violência, fortalecendo as evidências de que o trânsito há muito, já se tornou problema de segurança pública. Tratam-se de motociclistas em fuga durante perseguição pela polícia, alguns com ficha criminal e que em seus perfis no Facebook publicavam vídeos, fotos e postagens dirigindo em alta velocidade, sem cinto de segurança, empinando motos, fazendo apologia à violência ou se gabando de terem escapado de abordagens policiais pelas ruas da cidade.  Algumas postagens chegavam a ser em tom de desafio aos policiais e à fiscalização de trânsito.

Chegou a circular em um veículo de imprensa e pelas redes sociais o vídeo em que um dos mortos em acidente violento no trânsito aparecia dirigindo fazendo borrachão e arrancada em via pública. Em seu perfil nas redes sociais uma postagem que remete ao filme Velozes e Furiosos chamou à atenção pela frase: “Se um dia a velocidade me matar, saiba que eu morri sorrindo”. Foi uma das mortes mais violentas no trânsito de Blumenau e hoje a família ainda chora.

A tríade que potencializa ainda mais os acidentes de trânsito e faz a combinação fatal para que resulte em mortes: álcool, imprudência e velocidade. Nos 3 casos confirmados de embriaguez ao volante os condutores que causaram o acidente registraram níveis de alcoolemia que, se estivessem vivos, os responsabilizariam por crime de trânsito com base no art. 306 do CTB e suspensão do direito de dirigir por, no mínimo, 6 meses.

Em alguns casos o teste de etilômetro (bafômetro) não foi realizado devido à gravidade das lesões, ao estado de inconsciência após a colisão ou devido ao óbito. Dez vítimas fatais morreram no local do acidente e outros 13 no hospital, seja após dar entrada ou após a internação.

Em minha opinião, aqueles que dirigem com imprudência, abusam da velocidade, praticam direção perigosa e têm comportamentos agressivos e transgressores no trânsito, quando provocam o acidente e morrem sozinhos passam por uma espécie de seleção natural e desaparecem como consequência de seus atos imprudentes. É o famoso “quem procura, acha”. Quem tem comportamentos preventivos no trânsito evita em mais de 90% o risco de acidentes. Mas, o problema, é quando inocentes pagam a conta dos imprudentes.

Vejo com preocupação os meninos que empinam bicicletas hoje, pois daqui a alguns meses a tendência é de que passem a empinar motos e a tratar a direção perigosa como um “esporte” que se pratica nas vias públicas. No final, tudo volta à questão principal: a educação, e desde que o mundo é mundo é o adulto que educa as crianças. Não o contrário. De acordo com o último Censo do IBGE com dados de 2010, a população de crianças em idade escolar do Ensino Fundamental até a idade de 14 anos era de 61.342 meninos e meninas. O restante da população de pouco mais de 309 mil, seriam então, aqueles que deveriam ser educados para o trânsito por essas crianças. Desproporcional, não? As crianças superpoderosas têm pela frente uma tarefa ingrata, pois desde que o mundo é mundo são os adultos que educam as crianças e não o contrário. É muito peso para se jogar nas costas da infância e da escola. Para quem os adultos e pessoas envolvidas e metidas a entender de trânsito empurrarão essa batata quente?

É necessário rever tudo o que se vem fazendo e que se chama de prevenção, pois estamos fazendo isso a muito tempo e não estamos tendo resultado. Panfletos, blitz educativa e palestras são atos simbólicos. É necessário rever tudo o que se vem fazendo e que se chama de prevenção, pois estamos fazendo isso a muito tempo e não estamos tendo resultado.

Tudo passa pela educação. Muitos pais se queixam que não dão conta dos filhos, que eles não obedecem, os desrespeitam e agridem. “Ninguém nasce mau”, alerta a psicóloga. A educação começa de berço, na família. Tudo o que eles aprendem na família reproduzirão em todas as suas relações sociais, inclusive no trânsito e não vai adiantar jogar a responsabilidade para a escola e para a polícia quando esse filho mais tarde vier a transgredir na vida e no trânsito.

Para os pais, fica a dica: como estou educando os meus filhos? Onde a família está falhando?  Como os pais estão maternando as crianças? Como está a qualidade do amor, dos princípios, dos valores e da educação que a família está dando à criança. Os pais estão sendo permissivos? Há excesso de liberdade, falta de conversa, de construção de limites? Que exemplo os pais estão dando aos seus filhos? “Quando a família não dá conta dos filhos, chama a polícia, a escola, o diretor para colocar os limites que a própria família não construiu com a criança e o adolescente a vida inteira”, ressalta Simone Ciotta. Se a família não recuperar o seu papel vai chegar uma hora em que o limite será um tiro ou um acidente fatal no trânsito. Se a família não constrói limites com amor a vida se encarregará de impor esses limites pela dor, complementa.

E para você, leitor, fica o questionamento: como essas mortes no trânsito o sensibilizam? O que elas te ensinam? Como você vai se comportar da próxima vez que for dirigir?

 

Márcia Pontes
Especialista em Trânsito

Representante do Maio Amarelo em Santa Catarina

 

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