Um fenômeno que assusta: motoristas não conseguem manter os veículos na pista

Por Marcia Pontes, colunista do Notícias Vale do Itajaí:

 

Capotamentos, tombamentos, precipitações em barrancos, saídas de pista, colisões em objetos fixos como postes, meio fio, muros, cercas, veículos que invadem as calçadas e quintais. A recorrência desses tipos de acidentes está sendo tamanha que chega a assustar, chama à atenção, preocupa, toma ares de fenômeno. Isso vai gerando muitas especulações, julgamentos, juízos de valor, conclusões precipitadas, tentativas de racionalizar, mas para além dessas reações há que se analisar esses fatos à luz de um conjunto de fatores com viés científico e comportamental. Que fenômeno é esse que se apresenta em razão dos motoristas não estarem conseguindo realizar a atividade primária de todo motorista, que é manter os veículos na pista de rolamento?

Algumas das definições de fenômeno remetem a tudo que impressiona, àquilo que não é comum e pode surpreender, o que extrapola os limites da normalidade. Bem o que parece estar acontecendo com muitos motoristas em Blumenau nos últimos dias e para o qual existem razões científicas e comportamentais para explicar e facilitar o entendimento, o que é bem diferente de respostas prontas.

Todo acidente é uma combinação de fatores. Um acidente raramente tem um só fator envolvido e esses fatores são: o homem, o veículo, a via e o ambiente. Nessa categoria entram as condições adversas de clima, de tempo, de luz e até o momento em que se vive com as festas de outubro. Um condutor pode entender que tem experiência para dirigir, muito tempo de habilitação, prática, mas ele não controla os demais fatores. Não controla õ comportamento dos outros motoristas, por exemplo, ou uma falha mecânica quando ela é pontual e fruto da falta de manutenção preventiva. O motorista não controla as condições adversas da via, mas pode dirigir preventivamente e adaptar-se às condições adversas. O motorista não controla as leis da Física e ponto.

O que espanta é a recorrência dos acidentes provocados por motoristas que não conseguem realizar a atividade primária de todo condutor: manter o veículo na pista de rolamento. Isso tira a segurança dos pedestres que procuram caminhar pelos lugares protegidos (ou que deveriam ser protegidos) como as calçadas. Você está regando as flores no quintal e de repente um veículo desgovernado pode te atingir. Está caminhando na calçada,  corre o risco de ser atropelado e de só acordar no hospital. Isso vai gerando a sensação de que ninguém está livre de um motorista que vai perder o controle do veículo, atropelar os pedestres e causar outros danos.

Por outro lado, há pedestres que também se arriscam em travessias precipitadas em meio aos veículos. Nesse ponto, estamos como cães correndo em volta do próprio rabo. Mais parece notícia velha, mas são repetições da falta de cuidados de motoristas e pedestres. Trânsito  é comportamento, é cultura no sentido de “esse é o modo como fazemos as coisas por aqui.”

 

Faltam autocuidados básicos de motoristas e pedestres

Os fundamentos para evitar acidentes são tão simples e repetitivos que, talvez, pedestres e motoristas não acreditem em sua eficácia e poder de proteger. Pedestres que se arriscam correndo em meio aos veículos quando deveriam parar, olhar para os dois lados, calcular a distância, a velocidade dos veículos, calcular se vai dar tempo. Nos dias chuvosos o piso perde atrito com os calçados, fica mais escorregadio e até o tipo de tinta da faixa de pedestres aumenta o risco de escorregar e cair. Imaginem correndo em meio aos veículos onde não tem faixa e ilha de segurança! Essa última, que tem a finalidade de proteger, pode machucar ainda mais o pedestre em caso de colisão do veículo com a sua estrutura.  

Os motoristas tendem a reclamar de buracos, asfalto ruim, curvas fechadas, mas diante de um asfalto bom, muitos não hesitam em dirigir acima da velocidade sabendo o que estão fazendo. Assumem riscos e pagam o preço. Regra básica que todo motorista sabe: dirija sempre um pouco abaixo do limite da velocidade projetada e regulamentada para a via; onde tem curva freie antes; em dias chuvosos o tempo de parada total do veículo é o dobro do que se dirigissem em pista seca.

O atrito dos pneus com o asfalto fica prejudicado e piora se os pneus não estão em bom estado ou são meia vida. Em tempo chuvoso redobrar os cuidados, acender o farol baixo e não abusar da velocidade. Cadê o segredo?

Um dos principais fatores que provocam a saída de pista é o excesso de velocidade, é não frear antes da curva e entrar na tangente com velocidade inadequada. Se frear em alta velocidade mesmo com pneus ABS as leis da Física falarão mais alto, o veículo vai rodar e só entrar em inércia depois que bateu em algum objeto fixo e machucou alguém.

 

Faixas elevadas não são quebra-molas

Diante do comportamento dos motoristas, principalmente daqueles que abusam da velocidade, a população vai se sentindo ameaçada e começa a implorar por faixas de travessia elevadas como se ela fossem quebra-molas. Na verdade, as faixas de travessia elevada têm como finalidade principal a segurança dos pedestres, por isso, elas só podem ser implantadas onde há grande circulação de pessoas para atravessar. A rua precisa ser pavimentada, ter calçada, e não podem ser instaladas onde tem curva, subida e onde a visibilidade é ruim. Curiosamente, muitos pedidos de faixas de travessia elevada são em trechos assim.

Ainda que a faixa elevada force os condutores a baixar a velocidade, elas também têm contrapontos que precisam ser levados em conta: aumentam a poluição, não suportam o peso de veículos pesados como ônibus e caminhões e por conta disso danificam o via por excesso de peso, além de diminuir a vida útil da parte elevada da faixa. Também dificultam o trabalho das viaturas de socorro e de atendimento de urgência e emergência que precisam frear e reduzir, diminuindo em segundos preciosos o tempo que pode salvar uma vida. Por isso, os critérios de implantação são técnicos e devem ser seguidos à risca.

 

A banalização e a naturalização da imprudência

Todos os dias pelas ruas da cidade observam-se imprudências e negligências de todos os tipos. Não tem um motorista ou pedestre que não tenha uma história prá contar ou uma queixa para fazer, mas, muitas vezes, inclusive os que reclamam dos outros acabam cometendo imprudências.

Talvez nem todo motorista saiba que ultrapassar onde tem linha contínua dupla ou simples amarela é uma infração gravíssima multiplicada por cinco e que custa quase R$ 1,5 mil, mas sabem que enquanto estão ultrapassando pela contramão em local proibido, se viver um carro vai bater de frente. E é justamente por essa falta de percepção e de gerenciamento dos riscos no trânsito que essa é uma das infrações mais cometidas pelos motoristas. Quando a infração dá certo o motorista segue propenso a infringir cada vez mais, mas quando dá errado vira acidente de alta gravidade.

O mês de outubro já traz as suas cautelas específicas: a cidade promove uma das maiores festas das Américas em que o chope é o carro chefe, o apelo ao consumo de bebidas alcoólicas é grande e o impacto no trânsito, admitam ou não, também é. Outra peculiaridade de outubro são as chuvas, que esse ano estão insistentes, e isso altera (ou deveria alterar) o modo de dirigir e de caminhar das pessoas.

Trânsito é comportamento. Os motoristas e pedestres sabem muito bem o que fazer, mas assumem riscos altos demais por meio de práticas arriscadas. Dependendo das condições adversas como óleo na pista, piso molhado e velocidade inadequada ainda que abaixo da placa que a regulamenta, um veículo sai sim da pista. Isso significa que os cuidados e a atenção devem ser redobrados.

Não se trata de julgar os motoristas, mas também sabemos que nem todas as saídas de pista, os capotamentos, tombamentos e colisões contra objetos fixos são porque o motorista teve um mal súbito. Não se pode generalizar e banalizar esse tipo de coisa. Se tivéssemos perícia de acidente de trânsito essas questões seriam pronta e cientificamente comprovadas. O que se sabe é que diariamente se cometem muitas infrações de trânsito e que quando elas dão errado transformam-se em acidentes.

Trânsito é comportamento, o assunto é sério e todos nós pagamos a conta. Esse fenômeno precisa ser estudado cientificamente na nossa cidade e compreendido por meio de ações conexas, integradas, sistêmicas e que envolvam, principalmente, a população. Se não for assim, a população não se mostrará responsiva a qualquer tipo de apelo. Ou se desnaturaliza esse estado de coisas ou continuaremos vivendo de discursos sobre segurança no trânsito e como cães correndo atrás do próprio rabo. Sem esquecer que o dever de autocuidados com a própria vida e a do outro é responsabilidade de cada um, mas também coletiva.

 

Márcia Pontes
Especialista em Trânsito

Representante do Maio Amarelo em Santa Catarina

 

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