Saramago e a greve dos caminhoneiros

Por Leonardo Secchi, colunista do Notícias Vale do Itajaí:

 

No livro “Ensaio Sobre a Cegueira”, o escritor José Saramago descreve, de forma brilhante, como se revela o instinto humano diante do caos. É diante do caos ou do extremo que se revela caráter, ética, a essência individual. Quando você lê o livro ou vê o filme lançado depois, é impossível não se perguntar qual seria sua reação diante do caos instaurado. Qual verdade eu revelaria? Qual seria minha visão ou minha cegueira?

A paralisação dos caminhoneiros que gerou o efeito dominó no desabastecimento do país, assim como a cegueira proposta por Saramago, também faz suas revelações: o empresário que pune o consumidor para ganhar mais, seja no aumento do preço do combustível ou dos alimentos; revela o cidadão que quer garantir o seu sem se importar se o outro terá ou não; revela o governo incapaz de proteger a população e ainda a pune pela rebelião; também revela o eleitor e o político mais preocupado em defender cores e bandeiras à própria nação.

Saramago faz uma crítica ao “egoísmo e à selvageria humana” e ao parafrasear o famoso ditado “mais cego é aquele que não quer ver” aponta dois caminhos para uma sociedade mais humana: a esperança, a ordem e justiça social. Não há espaço para ambas quando apenas legislamos em causa própria.

 

Mudança de postura

Quando falamos em mudança de postura, de renovação, estamos falando em mudarmos esse famoso “jeitinho brasileiro” e nos unirmos para melhorarmos o sistema, o país, a vida de todos.

A categoria não reivindicou apenas a redução do preço dos combustíveis, que de forma absurda já aumentou 20% em cinco meses. A greve parou o país porque não é só o grito dos caminhoneiros. Ela uniu todas as classes e categorias insatisfeitas com o governo que tem permitido reajustes abusivos diante de um salário mínimo intocável e a pesada carga tributária brasileira que não parece retornar em obras e serviços públicos. Todos sentem os reflexos, do patrão ao empregado, da dona de casa ao empresário.

Como otimista e entusiasta que sou, reconheço as fraquezas humanas tão bem apontadas por Saramago, mas acredito também no que a paralisação dos caminhoneiros tem apontado ao país em pleno ano eleitoral: o povo tem muita força, tem poder de união e é capaz de provocar mudanças. Isso se chama esperança.

 

Reféns

Em uma análise mais técnica e centrada na gestão pública, a paralisação dos caminhoneiros também expõe a fragilidade de infraestrutura e de logística no país, que há décadas vem sendo sentida pela população e cobrada pelos setores.

Por que será que estes dias turbulentos foram suficientes para parar o país? Com ferrovias só no papel (metrô e transporte marítimo ainda só em sonho no Estado) e com veículos movidos a combustíveis fósseis (cadê os carros elétricos?) seguimos reféns de um único modal, do transporte por rodovias em situações precárias.  Quando somamos isso ao alto preço dos combustíveis, fica fácil entender a paralisia nacional. Este é outro ponto que sempre entra e, infelizmente, nunca sai da pauta eleitoral.

 

Opinião

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