Por que é tão difícil para quem mata no trânsito (ou para a família) pedir perdão?

Por Marcia Pontes, colunista do Notícias Vale do Itajaí

No ano de 2015 um rapaz de 25 chamado Rafael dirigiu e colidiu alcoolizado (0,79 mg/L) contra um ciclista chamado Fabrício, 35 anos, que deixou órfãs a mulher e duas filhas, uma de 7 anos e outra de 9 meses. O caso foi em Brasília. O ciclista era vigilante e estava indo para o trabalho. Surpreendentemente, não se sabe se por expressão do sentimento de humanidade, de caráter, índole ou por estratégia dos advogados, o condutor embriagado e a família dele assinaram e publicaram uma carta com pedido de desculpas e que começa assim: “Queremos primeiramente pedir perdão à família do Sr. Fabrício pela imensa dor causada. Já entramos em contato com a família do Sr. Fabrício e estamos disponíveis para dar todo apoio necessário nessa hora trágica.” Considerando a decisão de dirigir embriagado como erradíssima, os familiares de Rafael continuaram na carta: “Depois da decisão erradíssima de dirigir após beber, o Rafael atropelou o Sr. Fabrício. Gostaríamos de fazer um apelo a todos os jovens que acham que essa tragédia só acontece com os outros. Ao dirigir depois de beber, você pode destruir a vida de uma família inocente, destruir a vida da sua família e destruir a própria vida.”

Raro, muito raros os casos assim, tanto que ainda não achei outro para incluir a referência no texto. Sabe-se lá o quão difícil foi (ou não) para essa família vir a público pedir desculpas, reconhecer o erro do filho e repreendê-lo publicamente. Não é o que se costuma fazer e comumente o que se tem visto são os acusados pedindo absolvição sumária tentando se eximir da própria responsabilidade e das consequências culpando as próprias vítimas que faleceram ou ficaram gravemente feridas. Seja por iniciativa própria ou por estratégia de advogados.

Minutos após a colisão… ops… da tragédia anunciada (porque é um risco que é previsto e assumido por quem dirige alcoolizado), a primeira reação é de se fechar numa bolha na tentativa de blindar o motorista alcoolizado e a sua própria família do que vem pela frente. Medo da reação da sociedade? Medo da comoção? Vergonha da sociedade, de outros membros da família, dos clientes? Será que passam a mão na cabeça de quem bebeu, dirigiu e matou ou dão uns petelecos ali mesmo na delegacia?

Enquanto os perfis das vítimas mortas e feridas se enchem de condolências e de brados por justiça dos homens ou divina uma das primeiras coisas que o acusado faz (ou fazem por ele) é apagar todos os perfis nas redes sociais. Algumas pessoas mais próximas também fazem isso, mais parecendo querer que um buraco se abra e eles sumam do mapa, para que ninguém veja nada suspeito no perfil que possa associar a uma conduta que remeta ao “acidente” ou mesmo para não receberem as cobranças sanas e as revoltadas ou agressivas de alguns internautas. Talvez para não terem de ler algo do tipo “olhe nos meus olhos e veja toda a dor que você ou que o seu filho nos causou”.

 Mas, a família do Rafael fez diferente: mesmo envergonhados vieram a público pedir perdão (nem foi desculpas), julgaram a conduta do próprio filho erradíssima, publicamente se colocaram à disposição para dar todo o apoio necessário e que certamente também foi no sentido de começar a indenizar a esposa e as filhas órfãs, pois isso também tem consequências dentro do processo judicial. Mas, foram além e ainda assinaram juntos um apelo a todos os jovens que acham que essa tragédia só acontece com os outros. Admitiram e alertaram publicamente que ao dirigir depois de beber, você pode destruir a vida de uma família inocente, destruir a vida da sua família e destruir a própria vida. Parece coisa de filme, né?

Confesso que ao ler trechos dessa carta – e se essa família honrou mesmo com o que declarou publicamente -, me deu vontade de conhecer esse pai e essa mãe e agradecer pela tão nobre expressão de humanidade e dignidade diante do erro do filho que custou a vida de um pai de família cujas filhas crescerão sem que ele possa vê-las crescer, beijá-las e abraçá-las. Mas, antes eu gostaria de saber se o pai, a mãe e o próprio Rafael olharam nos olhos da viúva e das filhas e pediram esse perdão cara a cara, olhando bem dentro dos olhos delas para ter certeza de que se a expressão de todo esse sentimento era real e se eles aguentaram a barra de olhar nos olhos de quem também morre em vida pelas mãos de um condutor embriagado.

Mesmo que tenha sido estratégia de advogado, se essa família honrou o que cumpriu e se pediu perdão olho no olho ela serve de exemplo para muitos pais e mães de Rafaéis, Paulos, Josés, Evanios e tantos outros filhos que insistem em dirigir depois de consumir bebidas alcoólicas e como resultado levam dor e sofrimento a outros pais e mães de Adrianas, Suelens, Marias, Thaynaras, Letícias, Thaynás, Joanas, Amandas e tantas outras vítimas.

Pedir perdão dessa forma até pode extinguir o processo na área cível se as indenizações forem pagas e as pensões vitalícias assumidas diante do poder judiciário, mas (corretamente), não isenta o acusado de responder ao devido processo criminal para que seja punido pelas consequências de seus atos. A questão aqui é outra: pedir perdão verdadeiro diante das vítimas, em memória daquelas que não resistiram e às suas famílias é um ato de humanidade que revela força de caráter, fortes traços de dignidade, compaixão pela dor de quem foi prejudicado e assunção do dever de reparar todo o mal que foi feito. Revela humildade e outros nobres princípios que norteiam as suas ações no mundo. Mas, não basta pedir perdão como estratégia de defesa: tem que indenizar para reparar os danos praticamente irreparáveis.

Em vez de verdadeiras batalhas judiciais nem sempre honestas em seus argumentos, em que muitas vezes se usa de injustiça e até de heresias para se mostrar injustiçado, ah, como eu queria ver essa cena comovente, humana e verdadeira em que aquele que dirigiu embriagado e matou no trânsito vai com os pais até a casa de cada uma das vítimas e dos órfãos que ele deixou para olhá-las nos olhos e pedir perdão!  E se estiver preso, que receba no horário de visitas esses pais, olhe bem dentro dos olhos deles, peça perdão verdadeiro e assuma todas as consequências de seus atos sem disfarces. Quão humilde, honesto e digno seria que essas pessoas reconhecessem publicamente que erraram e que estão dispostas a pagar o preço devido às vítimas e à sociedade!

Certamente, os gastos com as longas batalhas judiciais seriam bem menores, as vítimas e as famílias seriam indenizadas e ainda que a reparação financeira não as trouxesse de volta aliviaria o sofrimento de quem perdeu um arrimo e o próprio chão. Haveria atenuantes no processo judicial e ainda que a comoção social existisse seria em torno de um gesto de humanidade, de compaixão e de dignidade difíceis de se ver. Certamente, muitos internautas iriam no perfil do acusado e de suas famílias elogiar e não xingar ou agredir.

Para quem mata e para a família de quem matou embriagado no trânsito não seria motivo de vergonha, de cabeça baixa ou de arrogância, mas sim de orgulho. Em vez de gritos de assassino enquanto entra blindado em uma viatura da polícia ou do sistema prisional se arrancaria choros, aplausos e cumprimentos pela humildade de admitir: “eu errei e tive a humildade, a dignidade e a honra de olhar nos olhos de todas as pessoas que eu feri e pedir perdão”.

Seria a chance de dizer de cabeça erguida e olhando nos olhos da plateia sociedade: “eu sei que não posso mudar as consequências dos meus erros ou trazer as pessoas que eu matei de volta, mas pelas minhas atitudes daqui para a frente eu posso tentar, com o meu exemplo, influenciar outras pessoas que insistem em dirigir depois de beber para que elas não causem aos outros a mesma dor e sofrimento que causei.”

E, quem sabe, algumas dessas pessoas também pudessem dizer: “eu podia pagar os melhores  advogados e os mais caros, mas eu preferi não prorrogar essa dor que é minha, da minha família e das pessoas às quais eu prejudiquei.”

Quem sabe, outros pais e mães de quem bebeu, dirigiu e levou dor e sofrimento a outras famílias também possam ter também a dignidade e a sinceridade de pedir perdão e dizer: “olha, eu também sou mãe e o meu coração também está dilacerado; eu também sofri e ainda sofro pelos erros do meu filho e queremos de verdade reparar tudo isso”.  

Quem sabe, esses pais e essas mães também possam ter a humildade de dizer que por trás daquele discurso formal nas peças processuais que parecia arrogante, impiedoso e que matava duas vezes as vítimas e suas famílias sempre existiu a vontade de pedir perdão, de abraçar aquela mãe sofrida, em lágrimas que olhava para o céu de braços abertos implorando forças para continuar vivendo minutos após enterrar a filha.

Quem sabe, esses pais e essas mães possam dizer que tentaram se colocar no lugar dos pais e das mães das vítimas mortas e machucadas pelos erros de seus filhos, mas não conseguiram suportar tanta dor. Mas, só conseguirão isso se tiverem a humildade de pedir perdão sincero e de tentar reparar todos os erros.

Talvez tenha passado (ou não) pela cabeça de muitos motoristas que beberam, dirigiram e provocaram tragédias essa possibilidade real. Talvez muitos pais e mães desses motoristas só não tenham tomado essa iniciativa por não saber por onde começar, por vergonha do que seus filhos fizeram, por vergonha de si mesmos, por não saber como olhar nos olhos das vítimas e de suas famílias ou porque foram orientados a não fazê-lo. Outros, talvez, para tentar fugir mesmo das responsabilidades e das consequências de seus próprios erros e de seus filhos.

Pedir perdão às vítimas, às suas famílias e indenizá-las não se trata de uma decisão puramente financeira ou puramente matemática do quanto isso vai afetar a dosimetria da pena a favor do réu. Trata-se de uma questão de humanidade, de dignidade, de honestidade e de justiça que os aliviará a alma, que os permitirá ter uma consciência tranquila e seguir pela vida de cabeça erguida, sem culpa ou vergonha.

“Em vez disso, corra a retidão como um rio e a justiça como um ribeiro perene.” (Amós: 5:24).  Ainda dá tempo e seria um dos mais dignos textos sobre o qual eu escreveria em toda a minha vida.

Márcia Pontes
Especialista em Trânsito

Representante do Maio Amarelo em Santa Catarina

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