Perícia particular do caso do Jaguar desafia até as leis da Física?


Por Marcia Pontes, colunista do Notícias Vale do Itajaí

Imaginem um rinoceronte branco com 2.300 quilos de peso sendo lançado contra o encosto do banco de um motorista sem cinto de segurança a uma velocidade de cerca de 82 km/h. Se esse motorista estivesse sem cinto de segurança não seria ejetado pelo parabrisas do veículo com pouquíssimas ou quase nenhuma chance de sobreviver? O tórax desse motorista não iria bater primeiro contra o volante fazendo com que órgãos internos explodissem com o impacto deformando o volante e ejetando esse corpo para fora do veículo pelo parabrisas?  Pura lei da Física que foi desafiada no laudo pericial particular contratado pela família de Evanio Wylyan Prestini, o motorista do Jaguar que se envolveu numa colisão na BR 470 no dia 23 de fevereiro de 2019. É a conclusão a que se chega quando se assiste ao vídeo da motorista do Palio feito minutos após a colisão e em que ela aparece caminhando sem nenhum corte ou mancha de sangue, consciente, alerta, aguardando o socorro.

Mas, curiosamente, na página 8 do laudo pericial particular feito por solicitação expressa de uma das irmãs de Evanio Wylyan Prestini, consta que “diante deste fenômeno produto do impacto dos corpos com os bancos dianteiros e a posição dos cintos dianteiros, foi possível constatar que nenhuma das ocupantes do veículo utilizava cinto de segurança no momento da colisão.” 

Peraí, mas e o rinoceronte branco de 2.300 quilos sendo lançado a 82km/h contra o banco da motorista que estivesse sem cinto? Não ejetaria o corpo para fora do carro ou o teria esmagado contra o volante e painel? Aliás, pelos cálculos do perito particular a motorista e a carona Suelen teriam recebido um impacto maior do que o exemplo do rinoceronte branco, ou seja, exatos 2.357,43 kg de força por metro. Uma pessoa que recebe uma quantidade de força dessas consegue sair sem lesões aparentes, sem cortes, sem manchas de sangue principalmente no rosto, no corpo, nos braços e pernas e caminhar consciente, falante, orientada em volta do veículo que dirigia enquanto aguardava socorro para si e para as ocupantes? Alguma coisa está errada nisso aí e não sou quem diz, são as próprias leis da Física, que falam por si só!

Esse é um fato que chama à atenção até pelo print de uma simulação técnica apresentada no laudo pericial particular e que foi retirada do site G1, de agosto de 2017) e que também foi publicada em dois canais do youtube: o canal Ao Volante e o canal Quebra de RotinaNo vídeo produzido e creditado na internet ao IHS, que é um instituto norte americano de segurança viária, um boneco de crash test também conhecido por dummie é arremessado sem cinto de segurança no banco traseiro contra o corpo do motorista, que também é um boneco dummie. No laudo pericial particular o print de tela desse vídeo não foi referenciado na sua autoria dando a entender que a simulação técnica foi feita pela própria perícia particular. Porém, as normas da ABNT para pesquisas e documentos científicos exige que cada texto, imagens, tabelas e quaisquer outras fontes de pesquisa que não tenham sido produzidas pelo autor do documento sejam referenciadas para não passar a falsa ideia de quem foi autor de uma produção feita por outrém. Quem já fez trabalhos na faculdade e apresentou o TCC sabe bem do que estou falando.

A imagem que está na folha 11 do laudo pericial particular foi utilizada para reforçar os argumentos do perito contratado pela família de Evanio Wylyan Prestini acerca dos estragos que o impacto de um carona do banco de trás sem cinto pode fazer ao motorista, que tem o tórax e a face comprimidos contra o volante, resultando, obviamente, em graves lesões. Tanto que na sua conclusão final do laudo pericial, o perito particular afirma na folha de número 25 que: “o acidente se viu agravado, segundo análise do veículo Fiat, pela comprovada falta de utilização dos cintos de segurança por parte de todas as suas ocupantes, as quais se projetaram, por força da projeção do impacto, colidindo diretamente com os bancos dianteiros, volante e painel, aumentando consideravelmente as consequências.”

Só que quem assiste àquele vídeo gravado por populares minutos após a colisão na BR-470 (e que não vamos fornecer o link por motivos óbvios) consegue ver o volante do Palio intacto, a motorista sem ferimentos aparentes, sem cortes, sem manchas de sangue em qualquer parte de seu corpo, sobretudo o tórax e a face, que seria atingida em cheio caso ela tivesse tido o corpo comprimido contra o volante conforme até o print de tela da simulação técnica divulgada na página do G1 e nos canais do youtube. A questão é: se a motorista foi atingida com a força de um rinoceronte contra painel e volante, como ela conseguiu driblar as leis da Física e não ser ejetada pelo parabrisas?

Lesões internas não deixam manchas de sangue no cinto

As explicações na perícia técnica particular contratada pela família de Evanio Wylyan Prestini insistem na posição dos cintos de segurança, na falta de manchas de sangue neles (manchas hematóides) e no fato de não terem sido cortados com uma pequena tesoura usada pelos bombeiros e que é chamada de corta-cinto. No entanto, há questões óbvias que precisam ser consideradas, até para ajudar a Justiça a compreender e a elucidar e julgar o caso.

Nesse mesmo vídeo de minutos após a colisão o popular que filmou mostra bem o corpo de Suelen já sem vida e rente ao encosto do banco do carona da frente com parte de seu corpo encarcerado na lataria do Palio. Quando o popular filma do lado esquerdo para o direito aparece o corpo de Suelen dos ombros para baixo completamente rente ao encosto do banco do motorista, mesmo tendo recebido, conforme os cálculos do perito particular, uma força maior do que o peso de um rinoceronte branco (mais de 2.300 quilos).  

Mesmo tendo parte do corpo encarcerado do lado esquerdo onde a lataria do Jaguar colidiu contra a lataria do Palio, se estivesse sem cinto o corpo de Suelen não seria ejetado do veículo pelo parabrisas? Mesmo encarcerado o corpo não ficaria em outra posição com lacerações ou cortes profundos decorrentes de uma quase ejeção que foi interrompida pela metade do corpo encarcerado? Ou permaneceria rente ao banco do motorista como se estivesse de cinto, aliás, relato confirmado pelos socorristas de que ela usava cinto no momento do resgate.

O fato de não haver manchas hematóides (manchas de sangue) nos cintos de segurança da motorista e de Suelen, por exemplo, pode ser explicado por dois fatos: a motorista estava usando cinto de segurança, tanto que o desafivelou, saiu do carro e ficou caminhando em volta dele até a chegada do socorro como mostram as cenas do vídeo. O cinto intacto no contexto dessa dinâmica aparece no vídeo gravado por populares minutos após o acidente. Se a motorista o desafivelou não havia a necessidade de cortar o cinto. Portanto, tecnicamente falando, não estavam todas as ocupantes do Palio sem cinto de segurança como afirma a perícia particular como mostram as imagens em vídeo que muitos assistiram.

No caso de Suelen a morte foi instantânea e o protocolo dos socorristas é de ignorar o resgate das vítimas fatais e dar prioridade às vítimas que ainda estão vivas. Se as lesões forem internas, ainda que haja hemorragia interna, obviamente não haverá manchas de sangue nos cintos. Mesmo que haja um corte no corpo da vítima, se na posição em que está ficou o está comprimindo com o seu próprio corpo até a chegada dos socorristas não haverá manchas de sangue no cinto de segurança.

Sobre o corta-cinto, dependendo da posição em que a vítima está, desafivelar o cinto em vez de cortá-lo pode ser menos traumático, pois com o travamento do cinto o corpo fica bem preso e usar o corta-cinto pode causar um “tranco” que por menor que seja poderá agravar ainda mais uma suposta lesão de ombro e de outras partes do corpo. Segundo o protocolo dos socorristas não é regra absoluta usar corta-cinto em todos os casos, ainda mais em vítimas como Suelen, que morreu na hora. Após socorrer as vítimas vivas é que o corpo dela foi retirado do veículo sem necessidade de cortar o cinto, apenas desafivelá-lo.

Advogados de Evanio pedem impugnação do boletim de ocorrência da PRF

Ainda na conclusão do laudo pericial particular o perito afirma “além de não existirem no local indícios de frenada”. Realmente, depois de 10 dias a perícia particular no local não ia achar mesmo, ainda mais em uma via em obras. Passou muito tempo entre o trabalho dos peritos particulares no local da colisão e as marcas de frenagem e de arrasto no asfalto já teriam sido perdidas. Marcas de frenagem são evidências fundamentais para cálculos de velocidade, de atrito dos pneus com o solo, para determinar o ponto de deflexão da frenagem de cada veículo, para a aplicação de fórmulas específicas para carro com freios ABS (caso do Jaguar) e carros sem freio ABS (caso do Palio), dentre outras questões centrais da perícia de um acidente de trânsito.

Curiosamente, não apareceram no laudo pericial particular, ainda que por meio de fotos do dia da colisão, as marcas deixadas pelo Palio no asfalto e que podem ser vistas no vídeo filmado por populares minutos após a colisão, tampouco a marca de arrasto do teto do Jaguar no asfalto no momento em que capotou. Nem na simulação da dinâmica do acidente feita em software (principalmente nas páginas 17 e 18 do laudo pericial) essas marcas aparecem.

Resta saber agora se o laudo pericial particular encomendado pela família do motorista do Jaguar terá a mesma credibilidade que sustenta, pois os advogados do motorista do Jaguar pediram, preliminarmente (antes de tudo), a impugnação do boletim de acidentes feito pela PRF por considerá-lo “unilateral” e “por conter relatos imprecisos e procedimentos imprestáveis do ponto de vista técnico, com destaque para os patentes vícios consubstanciados na não realização de uma ampla investigação de todos os aspectos do acidente, do ponto de vista objetivo (danos materiais do acidente) e subjetivo (pessoas envolvidas no acidente)”. (grifo meu)

Ué, mas a perícia particular não baseou grande parte de seu trabalho em cima do boletim do acidente supostamente cheio de erros e falhas feito pela PRF, inclusive para dar sustentação às suas análises, até porque começou os seus trabalhos cerca de 10 dias depois da colisão quando as evidências principais já tinham sido total ou sensivelmente apagadas?

E se tendo a perícia particular se baseado também no boletim de ocorrência e no trabalho da PRF, considerado pela defesa de Evanio como “unilateral”, por conter “relatos imprecisos e procedimentos imprestáveis do ponto de vista técnico” e com “patentes vícios”, inclusive do ponto de vista dos danos materiais do acidente, essa alegada falta de credibilidade e de erros ou falhas não afetaria diretamente o trabalho da perícia particular que atua como assistente técnica da defesa? 

Sinceramente, tenho particular interesse nessa questão do rinoceronte branco de 2.300 quilos que atinge uma motorista sem cinto de segurança pelo banco de trás, e que em vez de ter o corpo ejetado pelo parabrisas ou esmagado contra volante e painel sai caminhando sem nenhum arranhão. Desafiando as leis da Física? Milagre?  Ou a condutora estava mesmo com cinto de segurança, o que é negado pela perícia particular do motorista do Jaguar?  

Perguntas que serão feitas e cujas respostas serão dadas ou não dentro do processo penal que tramita na Comarca de Gaspar.

Márcia Pontes
Especialista em Trânsito

Representante do Maio Amarelo em Santa Catarina

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