Para as mães órfãs da violência no trânsito

Por Marcia Pontes, colunista do Notícias Vale do Itajaí

Para a Suily, mãe da Suelen, e para a Adriana, mãe da Amanda, será o primeiro Dia das Mães sem as suas meninas. Sim, para as mães não importa a idade porque o amor e a preocupação são sempre os mesmos. Os outros podem nos olhar de diversas formas, mas uma mãe sempre olhará para o seu filho do mesmo jeito que o olhou pela primeira vez após o primeiro chorinho, não importa a idade. Também será um dia muito difícil para a mãe do Gabriel, o motociclista que faleceu numa colisão na rua Amazonas, e para todas as mães que perderam os seus filhos em um acidente de trânsito. De todas as cenas mais destroçantes e arrasadoras que já presenciei nesses meus 53 anos de vida nada me marcou mais do que o choro, o sofrimento, a dor inenarrável e incomensurável de uma mãe que tem a vida do filho ceifada em via pública. Nem elas sabem tentar traduzir o que é pior: se quando a morte foi provocada pelo próprio filho ou pelas mãos de outro, principalmente quando esse outro bebeu e dirigiu. E a dor quase publicamente oculta da mãe daquele que matou no trânsito não será menor ou mais leve porque mãe é mãe e sabe o que a outra sente.

O ciclo normal da vida é que os filhos cresçam e enterrem os seus pais e quando essa ordem natural das coisas se inverte não é fácil para uma mãe enterrar os filhos. A ordem natural das coisas é vê-los crescer, ficar feliz da vida e contar para a família toda que a primeira palavra que o bebê disse foi “mamã”; vibrar quando eles comem pela primeira vez de colher sem deixar cair o alimento  e comemorar como se fosse um gol de copa do mundo quando o filho dá os primeiros passinhos pela primeira vez sem ajuda.

O normal é vê-los crescer, ir para a escola, assistir os primeiros jogos e competições de  que o filho participa. Normal é ir na formatura da escolinha, depois na formatura da faculdade; se emocionar n momento da homenagem aos pais e posar com a melhor roupa ao lado do filho e da filha que lhes enche de orgulho esbanjando o sorriso mais largo, realizado e verdadeiro que uma mãe pode ter.

O normal é que as mães não durmam enquanto os seus filhos não cheguem em casa e mesmo quando elas dormem, é um sono leve, de cochilo. Se não viu o filho chegar em casa podem crer que a primeira coisa que uma mãe faz assim que abre os olhos é ir ao quarto deles e conferir se já chegaram e estão dormindo. Não se espante, mas se o cobertor ou o lençol do filho estiver caído, mal ajeitado, não importa a idade a mãe irá sempre ajeitar, arrumar carinhosamente e cobrir o filho. Ah, praticamente todas não saem do quarto sem antes passar a mão nos cabelos e dar um beijo. Há quem diga que a música mais perfeita é aquela que tem o som de uma chave de casa ou do quarto abrindo a porta sempre que acorda na madrugada e sabe que foi o filho que chegou em casa.

O normal é que as mães estejam presentes no casamento dos filhos e chorem litros o choro da emoção, da felicidade, da realização. Qual é a mãe que já não dialogou com seus pensamentos em cima do altar e se espantou dizendo para si mesma em silêncio: “Nossa, ele ou ela cresceu mesmo!” ou um “Parece que foi ontem!”. Há mães que exclamam: “Ainda ontem era um bebê ainda lembro do primeiro chorinho quando nasceu!”

 E o filme vai passando junto com as lembranças das “artes” do filho, das noites em claro com ele ardendo em febre, com tosse ou dor de ouvido. Dizem que o dia do casamento dos filhos é o dia mais emocionante na vida de uma mãe. Se for o casamento da filha tudo ganha ainda mais emoção e magia. Lá está a mãe ajudando a escolher o vestido, a organizar a festa, a lista de convidados e a contar os dias, as horas para o dia em que a sua menininha vai se tornar uma mulher  e formar a sua própria família.

Para uma mãe a notícia de que vai ser avó não tem tradução diante da mágica da vida que se perpetua pela própria filha. As mães já se imaginam pegando o bebê no colo, posando para as fotos, sendo mãe duas vezes e tentando ser ainda mais mãe do que já foi de sua filha por meio de seus netos.

Mães sempre sonham em ver os filhos bem, felizes, realizados, com saúde, porque sabem que a ordem natural das coisas é continuar fazendo o seu papel de mãe para que no futuro, quando os pais se forem antes dos filhos, eles fiquem bem.

Nenhuma mãe imagina que um dia logo após receber uma mensagem de whatsapp ou um telefonema com a voz do filho do outro lado dizendo: “Mãe, tô chegando” ou “Mãe, deixa o portão aberto”, vai receber um outro telefonema dizendo que a filha não vai poder chegar em casa conforme o combinado ou que nunca mais vai chegar.

Coração de mãe é diferente de outros tipos de corações. Coração de mãe tem intuição, fala e parece que avisa quando o filho está bem ou está em perigo. Lembro de minha mãe, dona Nilce, que me deixou 6 meses antes da minha formatura na graduação andando pela casa e dizendo: “Nossa, estou com um perto tão grande no peito, uma sensação de sufocamento… será que o Sérgio e o Alexandre estão bem?” E sempre que ela sentia esse aperto no peito podem acreditar que alguma coisa tinha acontecido, nem que não fosse grave, mas algum risco, algum perigo os meus irmãos estavam correndo naquela hora. Eles também ouviam a mesma coisa de minha mãe quando eu estava fora. Coração de mãe não se engana!

Mas, quando a ordem natural da vida se inverte, se desfaz, e os filhos vão embora antes dos pais quem mais sofre são as mães. O sofrimento, a dor na alma chega a ser tão grande que a dor se torna física. O peito aperta, falta ar, falta o chão debaixo dos pés. O som é de uma prateleira de cristais gigante vindo ao chão de uma vez.

Nenhum abraço conforta naquele momento, nenhuma palavra bem escolhida para tentar não deixar transparecer a gravidade do que aconteceu com o filho engana uma mãe. Elas são mães e têm os superpoderes de amar, cuidar, proteger e até de saber quando os filhos estão em perigo ou não.

Um acidente de trânsito na vida de uma mãe é a pior das sentenças mesmo quando o filho não morre. É preciso cuidado, tato, zelo, sensibilidade extrema para comunicar a uma mãe que algo aconteceu com o seu filho. Ao longo da minha vida no exercício da minha profissão a cena mais angustiante sempre foi a da mãe ao lado do caixão do filho. Os olhos de cuidados viram um nascedouro de lágrimas que nunca mais acaba. Quando os corpos são cremados a mãe volta a abraçar a urna com o mesmo cuidado com que abraçou o corpinho do filho pela primeira vez, e o filho, a filha que já era adulto volta a caber em seus braços da forma mais dolorosa que existe para qualquer ser humano: em forma de cinzas.

Eu não sou mãe, meus filhos são os meus textos e o fruto doce do meu trabalho que ficarão para o mundo, mas posso perfeitamente compreender um pouquinho do tamanho da dor por que passam essas mães órfãs de seus filhos. Se como filha ainda é insuportável saber que nunca mais vou poder abraçar e beijar a minha mãe, sentar ao lado dela nos fins de tarde nas vezes em podia fazê-lo e passar o tempo colocando a conversa em dia…. se como filha eu tenho a certeza de que a perda da mãe é uma dor que te modifica para sempre, imagine a dor de uma mãe que perde a filha em uma colisão que poderia ter sido evitada se o motorista não tivesse insistido em dirigir depois de beber, cansado, com sono, com o estado psicomotor alterado que o fez invadir a outra pista e atingir em cheio 5 filhas e 5 mães.

Márcia Pontes
Especialista em Trânsito

Representante do Maio Amarelo em Santa Catarina

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