O que acontece depois que o acidente de trânsito vira manchete de capa?

Por Marcia Pontes, colunista do Notícias Vale do Itajaí:

 

Enquanto você lê esse artigo há vítimas de acidentes de trânsito que lutam pela vida em um leito de UTI após passarem por cirurgias altamente complexas, invasivas e delicadas. Mesmo respirando por aparelhos cada sopro mecânico é a esperança da família que se renova. É a fragilidade do corpo humano após o impacto do acidente de trânsito que fala mais alto. Enquanto o coma da vítima é induzido pelos médicos para tentar salvar a sua vida, a sociedade continua vivendo o seu coma diário, profundo para tudo que se relaciona aos acidentes de trânsito e suas consequências. Uma leve esperança de despertar desse coma parece surgir com aqueles instantes de comoção e respeito pela dor do outro, mas logo a anodinia, aquela sensação de anestesiamento e de indiferença ao sofrimento alheio volta acompanhada de julgamentos.

Ah, se as pessoas fossem humanas ao ponto de exercer a empatia, aquela sensibilidade perdida que faz com que um se coloque no lugar do outro para ver quanto tempo aguenta suportar o baque!  Ninguém pensa que qualquer um de nós pode ser a próxima vítima (de si mesmo ou do outro) e que em questão de instantes as próprias vidas podem se transformar para sempre.

O que ocorre é que depois de passada a transmissão ao vivo nas redes sociais, quando o acidente de trânsito que tinha virado manchete de capa é notícia velha, as pessoas e a sociedade retomam o seu estado de letargia profunda enquanto as vítimas e suas famílias tentam voltar de uma outra espécie de coma.

Quem diria que após nascer de novo depois que um carro invade a sala de casa, essa família teria que partir de mala e cuia para a casa de parentes e amigos depois que uma manobra em uma ladeira deu errado, o motorista perdeu o controle e destruiu o sonho de uma vida inteira erguido com dificuldade?

Quem diria que aquela festa em família faria parte dos últimos momentos da vida do Ismael, que tinha acabado de comprar a moto nova e recusou cada gole de bebida alcoólica para poder voltar para casa dirigindo em segurança?  Imaginem a dor e o desespero dos pais que estavam no carro da frente quando viram que o Ismael sumiu do espelho retrovisor e depois que voltaram para ver o que tinha acontecido se depararam com uma multidão de curiosos em volta do corpo do filho já sem vida?  Como olhar nos olhos do motorista embriagado que provocou o acidente?

Quem diria que o Fernando, aquele cara gente boa, brincalhão, motorista consciente que se revoltava com as imprudências dos outros motoristas fosse ter a vida ceifada justamente por um motorista embriagado? Como contar para o filho de 6 anos que a mãe lutava pela vida num leito de UTI com polifraturas enquanto o corpo do pai era recolhido do asfalto? Alguém já se perguntou como mãe e filho tentam lidar com as sequelas físicas e emocionais e com outras espécies de mutilações que ficaram?

Se para nós, meros internautas desconhecidos da família, já é difícil e não tem como não se emocionar vendo as fotos, imagine a barra que é para os familiares que ficaram órfãos de alguém em um acidente de trânsito!

Têm certas coisas que me inquietam, e muito, mas nada me inquieta mais do que os acidentes de trânsito que poderiam ser evitados. E olha que não são poucos! Tem semana que assusta! Nada me inquieta mais do que a fragilidade do corpo humano em um acidente de trânsito e as consequências disso no dia a dia das vítimas e das famílias. Mas, o pior de tudo é você saber que em uma fração de segundos a vida de alguém e das pessoas que estão à sua volta vai se transformar para sempre porque alguém fez a coisa errada. Muitas vezes, a própria vítima.

Estamos falando de uma caixa de lata que pode pesar entre 3,5 e 6 toneladas ou mais e que tem um pedal de acelerador. Imagine a fragilidade do corpo humano diante disso quando ocorre uma colisão.

 

A sociedade precisa acordar do coma coletivo

Enquanto a sociedade não acordar desse coma coletivo, enquanto não parar de naturalizar os acidentes de trânsito e as perdas de vidas como aceitáveis aumentaremos a sociedade dos inválidos. Não é só mais um acidente ali na esquina: é o corpo humano na sua fragilidade sofrendo impactos decorrentes de colisões que podem fazer o coração dessa pessoa e de seus familiares pararem na hora!

Acidentes não “acontecem”, são provocados, e em mais de 90% dos casos por infrações que deram errado. Acidentes não “acontecem” só com os outros e os motoristas não controlam os fatores ligados ao comportamento do outro, à via, aos veículos e ao ambiente. Carro com freio ABS não trava as rodas na frenagem, mas dependendo da velocidade com que entra numa curva a força centrífuga tira ele da pista e faz se precipitar em ribanceiras ou colidir contra objetos fixos.

Um coágulo no cérebro que se forma após um traumatismo cranioencefálico não é sempre uma gotinha de sangue que o próprio organismo pode absorver: é uma massa gelatinosa de cor avermelhada que se forma em torno da massa encefálica e que precisa ser removida para não comprometer funções neurológicas importantes. A pessoa sente dores de cabeça fortíssimas, tonturas, o pensamento e a leitura da realidade, muitas vezes, ficam confusas e é preciso tratamento longo.

Uma fratura de fêmur em uma colisão de moto não é só um osso que se parte: caso se forme um trombo ele vai percorrer o corpo da vítima até que chegue ao pulmão ou ao cérebro, podendo levar à morte, ao estado neurovegetativo ou à redução da idade mental dessa pessoa. “Ele só ri e assiste televisão”, lamenta a mãe de um motociclista que há 10 anos vegeta na cama após colidir com a moto em alta velocidade contra uma placa de trânsito.

Basta um atropelamento a 20km/h para que um idoso que já tem outras comorbidades venha a falecer semanas ou meses depois. Precisamos acordar para a gravidade das consequências dos acidentes de trânsito e parar de minimizar o tamanho do problema.

 Assim como a segurança é um direito fundamental previsto no artigo 5º da Constituição Federal também o é a segurança no trânsito. Tanto que no artigo 1º do CTB, dos parágrafos 2º ao 5º, a letra da Lei 9.503, de 23 de setembro de 1997 diz que o trânsito, em condições seguras, é um direito de todos e dever dos órgãos e entidades componentes do Sistema Nacional de Trânsito, a estes cabendo, no âmbito das respectivas competências, adotar as medidas destinadas a assegurar esse direito. E que medidas se vêm tomando nas cidades além de esperar o telefone tocar para sair em atendimento à próxima vítima?

Qual o compromisso que se tem com o trânsito seguro nas cidades? Quanto investimos em prevenção de acidentes de trânsito para além dos discursos cheios de uma pompa e de circunstâncias vergonhosas? Quanto gastamos em atendimento, recolhimento de corpos, combustíveis, remédios, biológicos, internamentos, cirurgias e tratamento público pós-hospitalização? Quanto isso custa para a pasta da Saúde dos municípios? Quantos que adoecem de causas naturais e não são atendidos porque os acidentados de trânsito, em sua maioria, politraumatizados, precisam ser atendidos primeiro?

Diz ainda a letra do parágrafo 3º do art. 1º do CTB que os órgãos e entidades componentes do Sistema Nacional de Trânsito respondem, no âmbito das respectivas competências, objetivamente, por danos causados aos cidadãos em virtude de ação, omissão ou erro na execução e manutenção de programas, projetos e serviços que garantam o exercício do direito do trânsito seguro. E no parágrafo 5º do mesmo artigo que os órgãos e entidades de trânsito pertencentes ao Sistema Nacional de Trânsito darão prioridade em suas ações à defesa da vida, nela incluída a preservação da saúde e do meio-ambiente. Mas, será que tem sido assim?

Em meio à esse coma coletivo diante da gravidade dos acidentes de trânsito precisam acordar não só os cidadãos, os motoristas, os pedestres, os motociclistas e demais usuários do trânsito, mas também as autoridades, os gestores do trânsito nas cidades e os políticos sorridentes que também têm sangue nas mãos em função da falta de compromisso e da indiferença.

Precisamos falar de trânsito todos os dias, mas não só sobre engarrafamentos, filas e buracos. Falar de trânsito para além do insistir em faixas elevadas como se fossem quebra molas. Precisamos levar trânsito a sério; tão a sério quanto as consequências dos acidentes diários e de todo o tipo de gravidade.

No dia 18 de novembro próximo será feita uma solenidade em memória às vítimas de acidentes de trânsito junto ao memorial erguido no Posto da PRF, km 53, em Blumenau. A solenidade é importante e lembrar das vítimas e de suas famílias é uma forma de significar a importância da vida, mas tanto as vítimas quanto os seus familiares merecem mais que isso. Merecem compromisso individual e coletivo com a segurança no trânsito que seja permanente, sério e verdadeiro os 365 dias do ano.

Mas, para que isso aconteça, a sociedade e as instituições precisam acordar do coma, parar de naturalizar os acidentes de trânsito e levar o assunto a sério.

 

Márcia Pontes
Especialista em Trânsito

Representante do Maio Amarelo em Santa Catarina

 

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