Diretores de escolas pedem socorro ao Seterb para fiscalizar quem empina bicicleta

A prática de algumas aventuras de bicicleta nas ruas, em praças públicas, calçadas e outros lugares público não adequados, pode gerar punição e a ‘bike’ ser apreendida? A colunista Márcia Pontes explica em seu mais novo artigo aqui no Notícias Vale do Itajaí:

 

Há quem acredite que empinar bicicleta está liberado, que não existe lei e nem punição para coibir essa prática nas calçadas, nas vias públicas, nas praças, e, sobretudo, na frente das escolas quando elas colocam em risco as pessoas. O artigo 255 do CTB prevê infração média, multa de R$ 130,16, remoção da bike ao pátio (só para dar entrada no pátio do Seterb o dono da bicicleta já desembolsa R$ 134,47) e se demorar muito para ir buscar a magrela paga uma diária de R$ 13,47 que é multiplicada pela quantidade de dias. Para o CTB bicicleta não é brinquedo, é veículo de propulsão humana e está sujeito às infrações e sanções do Código de Trânsito. Em Blumenau, diretores de escolas vêm encaminhando ofícios e pedidos formais de fiscalização ao Seterb para coibir os abusos de adolescentes e adultos que empinam as suas bikes nos horários de entrada e saída de alunos. Mas, é só perceberem a presença dos agentes de trânsito para que se armem verdadeiros bate-boca com quem empina e até com os pais e responsáveis por eles.

 

O que dizem os diretores de escola

Os diretores de escola que encaminham ofício ao Seterb solicitando formalmente a fiscalização estão preocupados com a segurança dos alunos, dos pais e dos próprios ciclistas que empinam as bicicletas nos horários de entrada e saída dos colégios. As saídas são em grupos, há alunos que vão e voltam sem a supervisão de um adulto e correm riscos de serem atropelados.

A graça de quem empina as bikes na frente dos colégios é “dar um grau”, se exibir, demonstrar habilidades, mostrar o quanto é bom empinando aquela que, para a maioria, antecede a moto, sonho de metal da maioria dos adolescentes. Diante das reportagens de adolescentes mortos empinando bicicletas muitos deles riem, debocham, culpam o outro por não saber empinar. Afinal, “quem mandou ser trouxa?”

Com os arroubos, atitudes e comportamentos afrontosos típicos de alguns adolescentes, eles demonstram a necessidade de testar as figuras de autoridade (muitos já fazem isso com seus pais e mães) sem negar as atitudes de criança: “nóis xinga os guardas de fdp, manda tomar suco de caju (a substituição da palavra foi por minha conta) e sai correndo. Quero ver me pegar.” E aí eu pergunto: como nos aproximarmos dessas crianças e adolescentes de modo que eles compreendam os riscos a que se expõem e aos outros?”

 

O que dizem os agentes de trânsito

Conversando com alguns agentes de trânsito que fazem as fiscalizações e atendem aos pedidos dos diretores de escolas os relatos são os mesmos: “eles nos xingam de tudo que você possa imaginar e mais um pouco.” Xingam, ofendem, testam, desafiam, tentam desmoralizar.” Depois disso alguns saem de pinote com as bicicletas como se fossem motos. Limites, respeito aos mais velhos que poderiam ser seus pais e às figuras de autoridade não está no vocabulário e nem nas atitudes de muitos desses garotos.

Conta um dos agentes de trânsito que em uma das fiscalizações um pai veio de voz alta e dedo em riste em meio à molecada no meio da rua exigindo que o guarda mostrasse “onde está a lei que diz que o menino não pode empinar a bicicleta dele?”. Educadamente, o agente abriu o CTB no art. 255, explicou sobre a multa e a remoção da bicicleta para o pátio, reforçando os riscos de acidentes com o próprio garoto. Ciente de uma informação que nunca tinha lhe chegado aos ouvidos, o pai baixou o tom de voz, agradeceu e disse: “Pois, quando chegar em casa ele vai tomar é uma coça prá aprender.”

 

Porque eles empinam

Eles empinam as bicicletas por diversos motivos, dentre eles, obter ganhos sociais, tais como: se destacarem no grupo, mostrar o quanto são bons, que fazem manobras mais radicais que os outros garotos, para impressionar as menininhas, e por aí vai. Diante das justificativas de alguns que empinar e dar o grau é esporte, fui buscar a origem desses malabarismos em duas rodas.

Cheguei aos relatos de LR ou rear lift e dos praticantes de wheeling bike. O LR ou rear lift é uma prática de empinar mais alto uma bicicleta comum ou moto e manter-se o maior tempo possível em movimento sobre a roda traseira. Teria surgido entre adolescentes de periferia em alguns países. Já o wheeling bike é quando o ciclista empina e se equilibra o maior tempo possível sobre a roda da frente, em movimento ou com paradas e malabarismos: invertem a posição das penas, dos braços, ficam em pé sob uma roda só, dentre outras possibilidades.

O wheeling não se faz com qualquer bicicleta: é preciso que tenha quadro baixo, não tenha marchas, utiliza o freio ferradura na frente para não travar a roda (como se fosse um ABS), selim inclinado para trás, pneus com aro de parede dupla e guidom mais curto, deixando a bicicleta mais pesada. Se esporte ou apenas diversão em grupo, não é realizado em via pública e necessita de espaço apropriado, isolado e específico.

 

Como lidar com as empinadas?

O mesmo artigo 255 do CTB que impõem multa e remoção a quem empina ou pedala de forma agressiva em via pública também permite desde que seja em local apropriado para a realização de manobras e empinadas. Para resolver o problema e dar ares de esporte a quem faz malabarismos com bicicletas eles teriam de ter locais reservados a exemplo dos skatistas. Polêmico para muitos, mas uma saída seria pensar a construção desse espaço público nos bairros. Talvez fosse uma forma de colocar limites e regras específicas que os adolescentes se dispusessem a cumprir. Pelo menos para dar o grau sem colocar os outros em risco. O fato é que em via pública não dá, é perigoso, proibido porque coloca as pessoas em risco.

Me preocupa como os pais lidam com os comportamentos dos adolescentes, com os tombos, capotes e raladas constantes de seus filhos. Me preocupa é o que não estamos fazendo para evitar que esses garotos virem estatística com motos daqui a alguns meses ou anos.

 

A bike de hoje poder ser a moto de amanhã

Será que existem mais pais 8 ou 80 como o que peitou o agente de trânsito durante a fiscalização na frente de uma escola de Blumenau para que mostrasse onde estava a lei que proibia o menino de empinar a bicicleta dele e que, depois de esclarecido, disse que iria dar uma coça no filho? Mas, ele não apoiava e defendia as empinadas até então? Porque mudou de ideia e reservou uma sova ao garoto?

Isso mostra que os pais, ainda que perdidos diante da permissividade que concedem aos filhos querem educá-los, só não sabem como. Isso sinaliza que falta informação acima de tudo e enquanto o esclarecimento não chegar à população o véu da ignorância não cairá.

Isso mostra que não adianta nos preocuparmos com os altos índices de acidentes com motocicletas se não olharmos para os garotos que empinam bicicletas, pois eles sonham com motos e, certamente, muitos as empinarão com ou sem habilitação.

Isso sinaliza que não adianta o discurso desesperado de educação para o trânsito como disciplina obrigatória nas escolas porque isso não vai chegar tão cedo, porque falta capacitar os professores, preparar as escolas e porque a educação para o trânsito também deveria vir de berço cabendo à escola complementar a educação recebida no seio familiar.

Que trabalho preventivo não se está fazendo nas escolas com os adolescentes de ensino médio para além de palestras que eles não curtem e não se interessam? Afinal, apenas dizer que empinar é perigoso não resolve, porque isso, para eles é combustível. Remover a bike ao pátio não resolve de vez o problema porque sai mais barato arrumar outra do que pagar multas e taxas para retirar a que foi apreendida. Não fazer nada piora ainda mais as coisas.

Fiscalização é necessário. Mas, enquanto não se levar educação para o trânsito a sério, enquanto Alice não acordar e não se der conta de que não vive no País das Maravilhas, é com isso que a sociedade terá de conviver. E a molecada só no grau! Empinando o nariz e as bicicletas.

 

Márcia Pontes
Especialista em Trânsito

Representante do Maio Amarelo em Santa Catarina

 

Saiba onde me encontrar nas redes sociais:

Facebook
Twitter

YouTube
Linkedin
Blog Aprendendo a Dirigir

Minha página de trabalho
Email: thesys@uol.com.br

error: Conteúdo Protegido!!