Desde que o mundo é mundo é o adulto que educa a criança para o trânsito

Por Márcia Pontes, colunista do Notícias Vale do Itajaí:

 

Desde que o mundo é mundo é o adulto que educa a criança. Isso é tão certo quanto andar para a frente. Só que nesses novos tempos alguém saiu com a ideia de que as crianças é que educam os adultos para o trânsito. O discurso é de que em respeito à criança o adulto passe a se comportar melhor em via pública, a respeitar o sinal vermelho, a faixa de pedestres, a não dirigir embriagado, respeite os limites de velocidade e o Código de Trânsito inteiro. De acordo com o último Censo do IBGE com dados de 2010, a população de crianças em idade escolar do Ensino Fundamental até a idade de 14 anos era de 61.342 meninos e meninas. O restante da população de pouco mais de 309 mil, seriam então, aqueles que deveriam ser educados para o trânsito por essas crianças. Desproporcional, não? As crianças superpoderosas têm pela frente uma tarefa ingrata, pois desde que o mundo é mundo são os adultos que educam as crianças e não o contrário. É muito peso para se jogar nas costas da infância e da escola. Para quem os adultos e pessoas envolvidas e metidas a entender de trânsito empurrarão essa batata quente?

Desde que a criança nasce é no seio da família que ela tem as suas primeiras aprendizagens. Para a vida e para o trânsito. As crianças aprendem com os adultos que cuidam dela o que sabem sobre respeito à todas as pessoas independente da idade, sobre educação, tolerância, vida em sociedade e na própria família. Crianças aprendem pelo exemplo caseiro a como se comportar, a como reagir diante de provocações e isso vai determinar se serão agressivas, debochadas, mimadas, cuidadosas e responsáveis dentro e fora de casa. Tudo isso elas aprendem com os pais e com os adultos que cuidam dela. A família é o espelho das aprendizagens da criança. A escola complementa as aprendizagens por meio das disciplinas específicas.

A criança vai para a escola, aprende a como atravessar na faixa de pedestres, a olhar para os lados ao atravessar a rua, que não deve correr na frente dos carros, a pedalar só na ciclofaixa ou pelos cantinhos acompanhando o meio fio para nãos serem atropeladas. Só que quando estão com os adultos eles são os primeiros a pegarem a criança pelos braços e a sair puxando em meio aos carros. Fiquem alguns minutos parados na rua 7 de Setembro perto do shopping para ver. E quando a criança educadora de adultos chama à atenção o pai ou a mãe, acaba ouvindo: “Anda logo menino, senão não vai dar tempo!”

De que tipo de crianças e de pais estamos falando? E a escola? O que os seus filhos estão aprendendo o ano inteiro sobre trânsito, fora das datas comemorativas, na escola? Alguns decoraram o artigo 76 do CTB e saem repetindo que é lei, que tem que ter disciplina específica de trânsito na escola, mas o que ninguém lhes diz é que essa foi a intenção do legislador que criou o CTB, mas temos uma lei que é inócua, que não pode ser aplicada porque a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) é do ano anterior e proíbe a criação de disciplinas específicas.

 

Tudo no lombo da escola e da criança?

Os adultos precisam repensar o próprio papel, o papel da criança e da escola se quiserem, realmente, ter uma geração responsável de usuários do trânsito porque desde que o mundo é mundo é o adulto da própria família que educa a criança. O que mais temos visto hoje são crianças mimadas, birrentas, pais permissivos que lhes fazem todas as vontades e as enchem de presentes para compensar a ausência, inclusive afetiva. Crianças praticamente têm poder de determinação sobre os adultos, mas não porque tenham a capacidade de educá-los, e sim porque os adultos são permissivos e deixam a criança mandar.

Um menininho birrento dia desses dava socos na barriga da mãe em um supermercado porque ela não queria ou não podia comprar o carrinho que ele viu e gostou. O filho de uma conhecida comia salgadinho na hora do almoço, uma das principais refeições do dia, e quando perguntei à criança se ela não ia almoçar conosco a mãe pulou na frente e disse: “ele não come no almoço, não adianta, é só salgadinho e refrigerante.” Peraí, mas quem educa quem nessa bagaça?

Estamos diante de uma geração de crianças altamente cheia de vontades, de birras, de manhas e bardas, que manipulam os adultos e invertem os papéis. Mas, isso não significa que educarão os seus pais para o trânsito. Aquele pai que compra uma moto de trilha para o filho ainda criança porque essa criança quase o obriga está prestando um baita desserviço à educação para o trânsito, tanto quanto o pai que dirige com a criança no colo, entre o seu corpo e o volante, sem qualquer proteção sob a justificava de que “ele gosta de dirigir, né, filho?”

E o pai ou a mãe que senta a criança ainda bebê no tanque da moto e sai com ela para “dar uma voltinha” nas ruas perto de casa? Detalhe: o adulto de capacete protegendo bem o miolo mole e a criança ali exposta à irresponsabilidade e à imprudência. Tudo porque a criança quer, a criança gosta.

Vivemos uma geração que inverte os papéis, que espera ser educada pelos seus filhos cada mais sem modos, sem educação, sem respeito. Filhos desafiadores e desrespeitosos que agridem os professores na escola e não respeitam os pais. Garotos que empinam bicicletas e daqui a alguns meses estarão empinando motos e viverão bem pouco porque o trânsito entrou em um processo de seleção natural.  

A sociedade mudou acompanhando as transformações globais, mas se tem uma coisa que nunca vai deixar de existir é: desde que o mundo é mundo são os adultos que educam as crianças. Não invertam as coisas. Nem na vida e nem no trânsito.

 

Márcia Pontes
Especialista em Trânsito

Representante do Maio Amarelo em Santa Catarina

 

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