Até quando motoristas alcoolizados protagonizarão tragédias anunciadas?


Por Marcia Pontes, colunista do Notícias Vale do Itajaí

Sabemos que não foi e por muito tempo ainda não será só a Amanda e a Suelen. Eles são muitos que um dia tiveram as suas mortes anunciadas não só em manchetes de tevê e jornal, mas pela conduta de motoristas que insistem em beber e dirigir. Desde a morte das meninas provocada por um condutor embriagado com 0,72mg/L de álcool os jornais, tevê e blogs de notícias não param de publicar casos de motoristas alcoolizados causando acidentes ou sendo flagrados em infração. O que está havendo com a sociedade e com as pessoas? Seria anodinia, esse sentimento de anestesiamento diante do sofrimento do outro? Seria a naturalização de um pensamento equivocado de que “acidentes” de trânsito são normais? De que é só mais um dos muitos acidentes por dia ou de que não será o primeiro e nem o último? A nossa sociedade está doente e fechando os olhos para a gravidade do problema?

A psicóloga Especialista em Trânsito, Iara Thielen, em seus estudos já demonstrou as variáveis que são três os principais motivos que levam motoristas a infringirem as leis de trânsito, dentre eles:

  1.  “não dá nada” ou “não existe fiscalização mesmo”, pensamento que reforça a crença na impunidade;
  • “Comigo não acontece acidente”, “ando devagarinho quando bebo e com mais segurança do que se estivesse sóbrio” ou que “só acontece com motorista pitoco”, reforçando a percepção enganosa dos riscos ao se dirigir embriagado;
  • A aceitação da bebida alcoólica pela sociedade como algo aceitável e até incentivado, independente de classe social ou quais outras variáveis, aliado a traços de comportamento em relação ao ato de beber e dirigir. 

Existe outro fato muito preocupante em relação ao ato de beber e dirigir quando se foca o álcool como um grave problema de saúde pública que serve de gatilho para outros tipos de violência, dentre outras, tais como a violência doméstica, as brigas (inclusive brigas de trânsito), as rixas, os assaltos, as colisões e mortes no trânsito. Eis uma reflexão que é ratificada pelas considerações e pela prática do competente advogado Douglas Cordeiro que me acompanha nesses assuntos sobre trânsito.

A grave tragédia anunciada que ceifou a vida de Suelen e Amanda tinha álcool no meio, e seja por consumo casual, social, fruto de diversão ou de qualquer outro motivo que sugira ou constate reincidência, surge aí outra preocupação: a quantidade de pessoas que abusa do álcool antes de dirigir diariamente pelas vias urbanas e rodovias. Diariamente!

Eu, como professora de condutas preventivas no trânsito, tenho muitos alunos (embora a agenda apertada com outros compromissos profissionais tenha diminuído a quantidade de aulas práticas) e muitas alunas relatavam que estavam buscando ajuda para dirigir porque os maridos bebiam antes de assumir o volante. Uma delas chegou a confidenciar que mesmo sem dirigir faz muitos anos, tinha de puxar o volante para que o marido, de tão embriagado, não provocasse um acidente com a família toda dentro do carro.

Sabem aquelas atitudes típicas de dirigir depois de ingerir bebida alcoólica no final do happy hour? De tomar uma ou mais cervejas no assadão enquanto espera o almoço de domingo ser assado, pesado e embalado? Aquelas latinhas de cerveja consumidas dentro do supermercado enquanto faz as compras? Parece que “não dá nada”, né? Mas, afeta sim o modo de dirigir.

Já pararam para observar as saídas dos frequentadores de bares, lanchonetes, pubs e afins como certos motoristas saem cambaleando? Muitos estão aderindo aos aplicativos de transporte para ir e vir e se soubesse o nome de cada que faz isso publicava aqui com os devidos agradecimentos. Mas, infelizmente, outros ainda não se conscientizaram de que uma volta segura para casa salva vidas.

Torçam para que um desses condutores embriagados não cruzem os nossos caminhos pela pista de rolamento e mesmo na calçada ou em frente de nossos portões. Torçam muito para que um “cidadão de bem”, respeitado, gente boa e que tenha enchido bem os canecos de bebida alcoólica não assuma o volante de um veículo e não cruze com você ou com seus familiares e amigos.

Mas, vamos torcer também para que a ficha dessas pessoas caia, que haja políticas públicas para atender os dependentes de álcool e de outras drogas. Vamos torcer que haja menos discurso e mais ação. Menos politicagem e mais valorização dos aspectos técnicos em relação à segurança no trânsito.

Quantas tragédias anunciadas ainda serão protagonizadas por pessoas que “acham” que é só mais um “acidente”? Pelos que têm a falsa certeza de que “não dá nada”, de que “acidente não acontece comigo”, só com “motorista pitoco” ou que “acham” que dirigem melhor depois de bêbados?

Tem uma coisa que se pode tomar antes de dirigir e sem moderação: juízo!

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Márcia Pontes
Especialista em Trânsito

Representante do Maio Amarelo em Santa Catarina

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