As verdades e as fragilidades que o caso do Jaguar expõe


Por Marcia Pontes, colunista do Notícias Vale do Itajaí

Vivemos em uma sociedade que acredita que a grana e a fama compram tudo: o silêncio, as simpatias, as peças técnicas, a lei e até a liberdade. Mas, não é isso que estamos vendo no caso do motorista do Jaguar, diga-se de passagem, um dos herdeiros mais abastados. Tem gente por aí que não entende como o moço está acomodado no Presídio Regional de Blumenau até a data desse artigo, ainda mais com advogados caros e de peso que já atuaram, inclusive, como defensores de políticos como Renan Calheiros, Fernando Collor, Marcelo Odecrecht, de envolvidos na Máfia do Lixo, do bicheiro Carlinhos Cachoeira e de outros figurões envolvidos na Lava Jato. Um deles é considerado em reportagens pela internet como um dos 15 mais caros do país. Foi a imprensa divulgar os nomes que já tinha gente apostando: “agora eles soltam o cara”, mas o cara continua preso. O que o caso do Jaguar nos ensina? Será que grana e fama compra tudo mesmo e até liberdade como se fosse item vendido em prateleira de supermercado? Sobre embriaguez ao volante e as suas desgraçadas consequências, será que o caso do Jaguar ensina alguma coisa para quem continua bebendo e dirigindo e para quem deveria manter políticas públicas de combate à bebida e direção?

Para quem assume o volante depois de dirigir o caso do Jaguar deveria ensinar e muito, mas não tinha dado nem 24 horas e motoristas já foram flagrados dirigindo embriagados e causando colisões. Apatia? Anodinia? Aquele excesso de crença na impunidade e no “não dá nada”? Só “acontece” com os outros?  Será esse o comportamento do homem médio citado em argumentos da defesa?  Estamos nos comportando de maneira média ou medieval em relação à bebida e direção? Porque tanto desconforto e hipocrisia em torno do assunto por parte de uma sociedade que paga caro, mas faz vista grossa para o grave problema social e de saúde pública?

O caso do Jaguar e as suas desgraçadas consequências acordaram os órgãos fiscalizadores: a PRF foi a primeira instituição a arregalar os olhos e mantê-los bem abertos diante da cobrança da sociedade, da exposição e por ter trazido à baila fragilidades até então desconhecidas da população. Ficamos sabendo que até água potável costuma (ou costumava) faltar no posto de atendimento. O que se sabe é que depois do dia 23 de fevereiro de 2019 as notícias de blitz, de fiscalizações de trânsito, de motoristas embriagados começaram a dominar os noticiários. As fotos de garrafas de bebidas e latinhas de cerveja nos bancos ou porta-trecos dos veículos passaram a viralizar.

Para quem acredita(va) que grana e fama compra tudo está aí o caso emblemático que fez muita gente se embolar no discurso e nas postagens em redes sociais. Foram 5 pedidos de liberdade negados em sequência, e isso não tem a ver exatamente com a capacidade, desempenho, conhecimento jurídico, fama dos advogados de Evanio ou o poder de compra de defesa técnica: tem a ver, sim, com o tamanho da lambança e da gravidade das consequências. É isso que o está mantendo com a liberdade privada com fulcro na lei.

Aos olhos da justiça, se temos leis que abrem brechas ou limam, em tese, as possibilidades de dolo eventual, o caso do Jaguar nos ensina que ele (o dolo eventual) não está e nunca esteve morto. Isso também nos ensina que a sociedade está sem paciência e sem tolerância para bebida x direção. Já são muitas as demonstrações de que não se aceita o discurso de naturalização dos acidentes de trânsito e da prática social de dirigir após consumir bebidas alcoólicas, principalmente quando tem bebida alcoólica no meio. Inclusive aqueles adeptos do “não devemos julgar” quando se colocam no lugar das vítimas e de suas famílias ficam torcendo para que o julgamento pelo Tribunal do Júri saia logo.

O caso do Jaguar trouxe à tona uma ruma de fragilidades: o hábito de beber e o consumo exagerado de bebidas alcoólicas de quem insiste em dirigir sob o efeito dessa substância, a teimosia de muitos motoristas, o sentimento de impunidade, o sofrimento sem fim das vítimas sobreviventes e de suas famílias diante do silêncio e da falta de contato de quem deveria reparar os estragos que fez, a falta de políticas públicas voltadas para enfrentar a alcoolemia dos motoristas, a falta de ações e programas neste sentido e a falsa sensação de impunidade que insiste em reinar no senso comum.

Já passou da hora de enfrentar o problema de frente, com seriedade, porque apenas lamentar não está dando certo, não está funcionando e fazer vistas grossas e ouvidos moucos já está pegando mal faz tempo.

Quem deveria debater o assunto não está debatendo. Quem tem poder de decisão na mão para tomar iniciativas não está se mexendo e a população, sempre a protagonista dos acidentes de trânsito, não está sendo convidada, sensibilizada e envolvida para assumir o protagonismo das práticas seguras no trânsito.

Mas, se o caso do Jaguar expõe verdades e fragilidades ao mesmo tempo em que coloca bebida x direção na berlinda, nos mostra outra grande dificuldade que é não reconhecer a complexidade de tudo que diz respeito à segurança no trânsito. Querem ações imediatas, respostas rápidas, solução instantânea para o problema quando, na realidade, depende de uma construção coletiva, integrada, sistêmica, da união de toda a sociedade. Ao invés disso centralizam tudo em torno de estatísticas, de discursos, de paliativos, de siglas, de pastas, diretorias, gerências e de outros que se digladiam em disputas por poder e visibilidade. Ou a sociedade entende de uma vez por todas o que significa morrer e perder alguém para sempre no trânsito; ou entende que a tríade trânsito, bebida e direção faz parte de uma epidemia que alimenta graves problemas sociais e de saúde pública que causam sangria nos cofres públicos e nas nossas esperanças ou continuaremos tratando vidas como se fossem números de uma estatística cuja conta nunca vai fechar. Mas, para isso, precisa parar de mascarar a realidade, retomar a sobriedade e a seriedade em torno do assunto.

Márcia Pontes
Especialista em Trânsito

Representante do Maio Amarelo em Santa Catarina

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