Embriagados e furiosos: as tentativas de “carteiraço” nas blitz em Blumenau

Em época de festa há necessidade de se tocar num assunto que cotidianamente é pauta nos veículos de comunicação: a direção sob o efeito de bebida alcoólica. Pessoas comuns embriagadas, flagradas ao volante, aparecem em vídeos que também costumam circular nas redes sociais, mas quem tem ‘certo poder’ nas suas mãos, como costumam agir ao serem abordados dirigindo bêbados? A Márcia Pontes comenta:

 

Parece até aquelas histórias que a gente vê na tevê em outras cidades e que chamam à atenção pela arrogância e agressividade dos motoristas, mas as tentativas de “carteiraço”, de demonstrar poder e influência também são comuns no dia a dia das fiscalizações de trânsito em Blumenau. O fato de termos pouco efetivo de agentes de trânsito e de não vermos tantas blitz como gostaríamos não quer dizer que elas não sejam feitas, e quando são, a média é de 3 a 5 motoristas flagrados embriagados fora do mês de outubro. Em época de Oktoberfest então, aí piora. Alterados, irônicos, falantes, agressivos e arrogantes, muitos motoristas alcoolizados revelam um misto de “estou acima da lei” com argumentos desconexos. Os casos mais graves, de embriaguez visível ou quando o motorista está alterado e parte para a agressão são resolvidos na delegacia. Ofensas, ataques pessoais e desacato são comuns quando eles constatam que não adianta ameaçar quem faz a fiscalização.

A partir dos relatos das falas mais comuns de muitos motoristas alcoolizados que tentam intimidar agentes de trânsito e policiais militares na nossa cidade, separei, por conta própria, algumas pérolas da arrogância por parte dos motoristas. Pelo modo como lidam com o fato de terem sido flagrados nas fiscalizações de trânsito e não terem como negar que beberam antes de dirigir dá até para arriscar alguns perfis.

O desmemoriado

O desmemoriado é aquele que ao ser flagrado dirigindo embriagado, assim que o policial ou o agente de trânsito solicita a habilitação, os documentos do veículo e o convida a fazer o teste de bafômetro dispara: “Tu sabe com quem tu tá falando?”. Imagina-se que tenha perdido a memória, que não saiba quem é e nem lembre o próprio nome, motivo pelo qual pergunta na esperança de que o policial ou o agente de trânsito saiba e trate logo de avisar o responsável por ele, um parente ou quem possa ajudá-lo a recuperar a sua identidade. Aliás, mais um motivo para não estar dirigindo além de embriagado.

 

O patrãozinho e a patroinha

Também existe na nossa cidade aquele motorista embriagado, homem ou mulher, que sofre da síndrome de patrãozinho e de patroinha. É aquele que geralmente discute, fala alto e vem de dedo em riste perguntando: “Tu sabia que eu pago o teu salário?”, como se o agente de trânsito ou o policial devesse cometer o crime de prevaricação diante da ameaça de motoristas alcoolizados com síndrome de patrãozinho ou patroinha.

O que demite todo mundo

O motorista embriagado que demite todo mundo pensa que é o Roberto Justus, olha para os policiais e agentes de trânsito e diz: você está demitido! Também é conhecido como o que sofre da síndrome de “dono do mundo”. Assim que é parado na blitz de trânsito e é solicitado a fazer o teste de bafômetro já sai disparando: “Pode procurar outro emprego. Amanhã tu tá na rua!”. Sim, com certeza quem os fiscalizou na abordagem estará na rua de novo porque são agentes de trânsito ou policiais militares que trabalham para tentar impedir que o dono do mundo provoque acidentes, sequele ou mate alguém ou a si mesmo ao volante. Nem todos amansam quando chegam na delegacia.

 

O pagador de impostos

O motorista alcoolizado com síndrome de pagador de impostos é aquele que fica revoltado porque foi flagrado dirigindo sob efeito de álcool, drogas ou com a capacidade psicomotora alterada. A primeira coisa que diz é: “Isso é um absurdo! Eu pago imposto para andar com o meu carro onde e quando eu quiser.” Parece que só ele paga imposto no país que está precisando de um Robin Hood faz tempo!

O que o motorista com síndrome de pagador de impostos não reconhece é que o carro pode ser propriedade privada, mas circula em vias públicas que ficam dentro de um bairro, de uma cidade e de um país e quando ele provoca o acidente por embriaguez aciona um aparato público enorme que vai desde viaturas, socorristas, agentes de trânsito, policiais militares, enfermeiros, médicos e outros profissionais que vão tentar salvar a sua vida e a dos inocentes que ele ferir no acidente que vai provocar.

O influente e Todo Poderoso

Esse é outro tipo de motorista embriagado que aparece com frequência. Geralmente é arrogante, agressivo, assume postura de ataque verbal e ameaça: “Amanhã mesmo eu vou falar com o vereador esse ou aquele” ou citam qualquer outro nome dos quais os motoristas alcoolizados se orgulham e acreditam que sejam os seus vingadores na tentativa de intimidar.

Quando constatam que a conduta exigida por lei dos agentes de trânsito ou policiais militares é mantida, se enfurecem. Sempre se recusam a fazer o teste de bafômetro e não sabem explicar o odor etílico, os olhos vermelhos, a fala arrastada e o(s) desequilíbrio(s).

 

O injustiçado

O motorista embriagado com síndrome de injustiçado é aquele que geralmente nunca leu uma página da Constituição Federal ou do Código de Trânsito, mas carrega na eloquência e já sai disparando o discurso de que está tendo violado o seu direito de ir e vir. “Pô, cara, isso é palhaçada. Vocês estão no meio da rua atrapalhando e me impedindo de ir para a minha residência!” Também tem aquele que diz: “Vocês sabem que estão abusando da autoridade e que não podem fazer isso, né?”

Tem um outro tipo de motorista alcoolizado injustiçado que de tão alterado até chora, se ajoelha e junta as mãos como se estivesse rezando e pergunta: “O que vocês querem que eu faça prá provar que eu não estou embriagado?” Quando os agentes da fiscalização sugerem o teste de bafômetro aí o injustiçado recua, se nega.

Imunidade para dirigir depois de beber?

Parece piada, mas tem motorista fiscalizado em blitz durante a Oktoberfest que diante da condição visível de embriaguez ainda pergunta: “A festa é da cerveja e não pode beber?”. Alguém explica, por favor, que não é proibido beber: o que é proibido é dirigir depois de beber.

Com festa ou sem festa, Blumenau é a terceira cidade do estado com mais mortes no trânsito dentre os 295 municípios e muitas dessas mortes foram e continuarão sendo provocadas por condutores embriagados que depois de sequelarem ou tirarem a vida de um inocente continuam reincidindo enquanto a família chora.

Os policiais militares e os agentes de trânsito estão cumprindo a lei e caso deixem de autuar quem comete infrações ou crimes de trânsito estarão cometendo o crime de prevaricação. É por esse motivo que não cabe a quem fiscaliza “educar” os motoristas. Educação vem de berço e ninguém é tão alienado assim que não saiba que beber e dirigir é proibido.

O motorista até pode se recusar a faz o teste de bafômetro, mas a simples recusa já implica em autuação ao artigo 165-A do CTB: infração é gravíssima, 7 pontos, multa multiplicada por 10 (R$ 2.934,70), suspensão do direito de dirigir por 12 meses, recolhimento do documento de habilitação e retenção do veículo até a chegada de um condutor habilitado e sóbrio. O valor da multa vai dobrando conforme a quantidade de reincidências nos últimos 12 meses. A embriaguez será comprovada pela aplicação da Resolução 432/2013 do Contran a partir da identificação e combinação de 18 sinais característicos e o condutor conduzido à delegacia.

O que vai distinguir entre a infração e o crime de trânsito é o resultado da medição do bafômetro ou o visível estado de embriaguez. Até 0,33 mg d/L é infração de trânsito com autuação pelo artigo 165. A partir de 0,34mg / dL caracteriza-se o crime de trânsito, que além de todas as implicações anteriores faz com que o condutor seja encaminhado à delegacia onde será autuado pelo artigo 306 do CTB (crime de trânsito). A pena é de detenção, de seis meses a três anos, multa e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor. Se tem dinheiro paga a fiança e vai curtir a ressaca em casa. Se não tem, vai para o presídio.

Vamos e convenhamos: a pessoa alcoolizada em quaisquer outras situações já fica chata prá caramba, mas quando assume o volante ou o guidom da moto coloca a si própria e à todos nós em risco e deixa aquela sensação de quem será a próxima vítima. Quem dera tivesse blitz todos os dias porque todos os dias, independente do horário, aqueles que acreditam na impunidade desafiam as leis de trânsito e do bom senso.

Pode até ser que aqueles que sofram da síndrome do desmemoriado, de Roberto Justus, do patrãozinho e da patroinha, de pagador de impostos, do influente Todo Poderoso e do injustiçado continuem tentando intimidar e ameaçar as pessoas. Mas, já sabem que o famoso “carteiraço” assim que é parado em blitz não vai funcionar. O que funciona mesmo é dirigir sóbrio. Inclusive nas atitudes.

 

Márcia Pontes
Especialista em Trânsito

Representante do Maio Amarelo em Santa Catarina

 

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